quinta-feira, 27 de março de 2008

AS FUNÇÕES DA LINGUAGEM

























Ao realizar um ato de comunicação verbal, o produtor da mensagem escolhe, seleciona as palavras, para depois organizá-las, combiná-las, conforme a sua vontade. E todo esse trabalho de seleção e combinação não é aleatório, não é realizado por acaso, mas está diretamente ligado à intenção do emissor.

Ao elaborarmos uma mensagem, dependendo da nossa intenção, do sentido que quisermos dar a ela, podemos enfatizar um desses fatores, definindo seu caráter. Daí resultam as funções da linguagem.



FUNÇÃO REFERENCIAL OU DENOTATIVA



É a mais comum das funções da linguagem e centra-se na informação, ou seja, no contexto ou referente. A intenção do emissor de uma mensagem em que predomina essa função é transmitir dados da realidade ao interlocutor de forma direta e objetiva, sem ambigüidades. Essa é a função da linguagem que prevalece em textos dissertativos, técnicos, instrucionais, jornalísticos.
Como está centrada no referente, normalmente há o predomínio da terceira pessoa, com frases estruturadas na ordem direta e linguagem denotativa (a função referencial também é chamada denotativa).



FUNÇÃO CONATIVA OU APELATIVA



Quando a intenção do produtor da mensagem é influenciar, envolver, persuadir o destinatário; quando a mensagem se organiza em forma de ordem, chamamento, apelo ou súplica, temos a função conativa da linguagem (também chamada de apelativa).
Para tentar persuadir o destinatário, é preciso, antes de mais nada, falar a língua dele, apelar para exemplos e argumentos significativos em relação a sua classe social, a sua formação cultural, a seus sonhos e desejos. Cada leitor deve ter a sensação de que o texto foi escrito especialmente para ele, como se fosse uma conversa a dois. Observe que conativo significa “relativo ao processo da ação intencional sobre outra pessoa”.
Gramaticalmente, a função conativa se caracteriza pelo emprego de verbos no imperativo e uso de vocativos.
É a função predominante nos textos de propaganda comercial, política ou religiosa.



FUNÇÃO EMOTIVA OU EXPRESSIVA



Quando a intenção do produtor do texto é posicionar-se em relação ao tema de que está tratando, é expressar seus sentimentos e emoções, o texto resultante é subjetivo, um espelho do ânimo, das emoções, do temperamento do emissor. Nesse caso, temos a função emotiva da linguagem (também chamada de função expressiva).
A estrutura da mensagem centrada no emissor revela-se em algumas marcas gramaticais: verbos e pronomes em primeira pessoa, interjeições, adjetivos valorativos, alguns sinais de pontuação, como as reticências e os pontos de exclamação.
Depoimentos, entrevistas, narrativas de caráter memorialista, diários, críticas subjetivas de cinema, teatro, música e demais manifestações artísticas, entre outras formas, são tipos de texto em que a função emotiva é fundamental.



FUNÇÃO METALINGÜÍSTICA



Quando a preocupação do emissor está voltada para o próprio código utilizado, ou seja, o código é o tema da mensagem ou é utilizado para explicar o próprio código, temos a função metalingüística ou metalinguagem.
Nos textos verbais, o código é a língua. Quando, numa mensagem verbalizada, usamos a língua para explicar a língua, ocorre metalinguagem. E isso acontece inúmeras vezes em nosso cotidiano: nas conversas informais, ou mesmo durante as aulas, quando questionamos o nosso interlocutor sobre algo que ele nos conta ou nos explica (“Não estou entendendo... o que você quer dizer com isso?”; “Dá para explicar mais uma vez?; etc.), a resposta será, inevitavelmente, um texto metalingüístico. As construções explicativas do tipo “isto é” ou “ou seja” também introduzem textos metalingüísticos.
Por utilizarem palavras para explicar as palavras, também são exercícios metalingüísticos as definições, os dicionários e as gramáticas (em forma de livro ou em aulas expositivas). Durante nossa vida de estudante, é muito comum a utilização da função metalingüística da linguagem: a análise de um texto, por exemplo, é um exercício de metalinguagem.
Em outras palavras (já que o tema é metalinguagem), sempre que a linguagem falar da linguagem, temos metalinguagem. É o que ocorre, por exemplo, quando um filme tem por tema o próprio cinema, uma peça de teatro tem por tema o teatro, um poema discorre sobre o fazer poético, etc. da mesma forma, considera-se metalingüístico todo texto que faz referência a outro texto. Na literatura, são comuns os textos que dialogam com outros textos já consagrados, seja para uma reafirmação das idéias, seja para questionar ou mesmo parodiar o texto anterior.



FUNÇÃO FÁTICA



Em alguns casos, percebe-se que a preocupação do emissor é manter contato com o destinatário, prolongando uma comunicação ou então testando o canal com frases do tipo: “Veja bem” ou “Olha...” ou “Compreende?...” Serve, portanto, para iniciar, prolongar, testar ou terminar a comunicação. Essa preocupação com o contato (o canal) caracteriza a função fática da linguagem.
Um bom exemplo do emprego da função fática são as conversas ao telefone, pontuadas por expressões do tipo “Está me ouvindo?” ou “Sim... sei...” ou “Hum.. hum...”, em que se testa o canal físico (no caso, a linha telefônica).



FUNÇÃO POÉTICA


Quando a intenção do produtor do texto está voltada para a própria mensagem, para uma especial arrumação das palavras, quer na escolha, quer na combinação delas, quer na organização sintática da frase, temos a função poética da linguagem. Ao selecionar e combinar de maneira particular e especial as palavras, o produtor da mensagem busca alguns elementos fundamentais: ritmo, sonoridade, o belo e o inusitado das imagens, valores conotativos, figuras de palavras. Num texto poético você poderá encontrar também as demais funções da linguagem, mas o valor da poesia reside exatamente no trabalho realizado com a própria mensagem.
Importante é perceber que a função poética não é exclusiva da poesia. Pode ser encontrada em textos escritos em prosa, em anúncios publicitários, em slogans, em ditados e provérbios, e mesmo em certas construções de nossa linguagem cotidiana.



EXERCÍCIOS



1. Um jornalista, ao comentar um livro recém-publicado, escreveu: “Não teoriza, não explicita juízos, é econômico nos adjetivos, narra, apenas”.
Com base nesse comentário, podemos afirmar que, no livro analisado, prevalece qual função da linguagem?



2. “Beba Coca-Cola”
Esse famoso slogan, como tantos outros, é uma mensagem muito bem estruturada. Comente as funções da linguagem que predominam na mensagem.

3. Fernando de Barros e Silva, crítico de TV do jornal Folha de S. Paulo, escreveu o seguinte comentário: “A bonequinha da estação do circuito descolado da TV está agora a serviço de mais um programa baixo de auditório. Babi é candidata a musa da função ... na TV (aquela função da linguagem em que não há propriamente transmissão de conteúdos e cujo objetivo é prolongar a comunicação ou interrompê-la, atrair a atenção do destinatário ou verificar sua atenção”. (TVFolha, 9.jan. 2000, p.2)
A qual função da linguagem refere-se o jornalista?



Leia atentamente o texto seguinte e responda às questões de 4 a 12.



TRÊS APITOS



Quando o apito
Da fábrica de tecidos
Vem ferir os meus ouvidos,
Eu me lembro de você.
Mas você anda,
Sem dúvida, bem zangada
E está mesmo interessada
Em fingir que não me vê.

Você que atende ao apito
De uma chaminé de barro
Por que não atende ao grito,
Tão aflito,
Da buzina do meu carro?

Você no inverno
Sem meias vai pro trabalho,
Não faz fé com agasalho,
Nem no frio você crê.
Mas você é mesmo
Artigo que não se imita,
Quando a fábrica apita
Faz reclame de você.

Nos meus olhos você lê
Que eu sofro cruelmente
Com ciúmes do gerente
Impertinente,
Que dá ordens a você.

Sou do sereno,
Poeta muito soturno,
Vou virar guarda-noturno
E você sabe por quê.
Mas você não sabe
Que, enquanto você faz pano,
Faço junto do piano
Estes versos pra você.



ROSA, Noel. In: Noel Rosa. São Paulo: Abril Educação, 1982. p. 86. Literatura Comentada.



4. Em que pessoa está escrito o texto? Justifique com palavras retiradas do próprio texto.



5. Caracterize a segunda pessoa do discurso.



6. Aponte duas circunstâncias que distanciam o falante da destinatária da mensagem.



7. A prosopopéia (ou personificação) consiste em atribuir características de seres animados a seres inanimados. Aponte uma prosopopéia presente no texto.



8. Podemos afirmar que o texto está centrado exclusivamente na segunda pessoa?



9. Reclame é um galicismo, isto é, uma palavra de origem francesa (réclame), muito empregado na época em que o samba foi composto (1931). Observando o contexto, substitua a palavra reclame por outra, de emprego mais atual.



10. Por que o falante afirma que vai “virar guarda-noturno”?



11. Que funções da linguagem predominam no texto?

Acompanhe o seguinte texto:



OS DOIS NÃO SABIAM INVENTAR ACONTECIMENTOS*



Sentavam-se no que é de graça: banco de praça pública. E ali acomodados, nada os distinguia do resto do nada. Para a grande glória de Deus.



Ele: ─ Pois é.
Ela: ─ Pois é o quê?
Ele: ─ Eu só disse pois é!
Ela: ─ Mas “pois é” o quê?
Ele: ─ Melhor mudar de conversa porque você não entende.
Ela: ─ Entender o quê?
Ele: ─ Santa Virgem, Macabéa, vamos mudar de assunto e já!
Ela: ─ Falar então de quê?
Ele: ─ Por exemplo, de você.
Ela: ─ Eu?!
Ele: ─ Por que esse espanto? Você não é gente? Gente fala de gente.
Ela: ─ Desculpe mas não acho que sou muito gente.
Ele: ─ Mas todo mundo é gente, meu Deus!
Ela: ─ É que não me habituei.
Ele: ─ Não se habituou com quê?
Ela: ─ Ah, não sei explicar.
Ele: ─ E então?
Ela: – Então o quê?
Ele: ─ Olhe, vou embora porque você é impossível!
Ela: ─ É que só sei ser impossível, não sei mais nada. Que é que eu faço para conseguir ser possível?
Ele: ─ Pare de falar porque você só diz besteira! Diga o que é do teu agrado.
Ela: ─ Acho que não sei dizer.
Ele: ─ Não sabe o quê?
Ela: ─ Hein?
Ele: ─ Olhe, até estou suspirando de agonia. Vamos não falar em nada, está bem?
Ela: ─ Sim, está bem, como você quiser.
Ele: ─ É, você não tem solução. Quanto a mim, de tanto me chamarem, eu virei eu. No sertão da Paraíba não há quem não saiba quem é Olímpico. E um dia o mundo todo vai saber de mim.
(...)



* Título adaptado



LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: José Olympio, 1979.



1) É possível estabelecer uma relação entre o texto deste episódio de A hora da estrela e seu título?



2) O texto é um diálogo entre duas personagens. Caracterize cada uma delas.



3) No diálogo entre o casal, em vários momentos as falas têm objetivos diferentes. Uma das funções das falas é a de manter a conversação – não há intenção de informar. Dê exemplos disso.



4) Cite uma passagem do texto em que se note que a função da fala é informar.



5) Destaque do texto falas que contenham um apelo (uma mensagem de comando) que influencie o comportamento do outro.



6) O texto é organizado como uma cena teatral. Você concorda com essa afirmação? Justifique.


Um comentário:

lorrayny disse...

por que nao tem a respostas da pergunta ?
aonde fica .. e por que nao tem .. ?